quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Conversando sobre Arte Entrevistado Gê Orthoff

A violência da história: o chão de Gertrud. Desenho, parte integrante da instalação. Dimensões variadas. Local: Centro de Arte Moderna, Madri, Espanha, 2008. Foto: Gê Orthoff.

Écoute. Instalação: Miniaturas, mesa de acrílico, fios, aquarelas, acetatos, foto etc. Dimensões variadas. Local: Galeria Ars 117, Bruxelas, Bélgica. 2009. Foto Gê Orthoff.


Os son(h)adores. Instalação: caixas de música, miniaturas, mesa, caixas de acrílico etc. 1,50x4,00m. Local: Conjunto Cultural Banco do Brasil, Brasília. 2010. Foto: Gê Orthoff.


Ver-0-(in)-ver-(n0). Performance/Instalação. Dimensões variadas. Local: Centro Cultural Caixa, Brasília. 2010. Foto: Gê Orthoff.










O poder não pode. Instalação: Dimenções variadas. Local: Galeria Gentil Carioca, Rio de Janeiro. 2005. Foto: Wilton Montenegro



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Gê você poderia falar algo sobre sua vida?
Nasci em Petrópolis, RJ em 19 de julho de 1959. Filho de um Pediatra com uma Atriz/ Diretora Teatral/Escritora. Meu ensino fundamental foi pulverizado por razões políticas que implicaram em constantes mudanças de meus pais. Estudei em escola pública em Brasília, no internato La Maison des Enfants em Paris, no Instituto Brasileiro de Ensino Geraldo Werneck em Petrópolis, no Colégio Rio de Janeiro, no Liceu Francês e no Colégio São Vicente no Rio de Janeiro.
Qual foi sua formação artística?
Meus avós eram artistas plásticos em Viena, comecei com eles, depois veio a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, o MAM do Rio, a ESDI-UERJ, onde me formei em Desenho Industrial. No último ano da ESDI, ganhei bolsa de estudos da Fullbright e fui aceito na School of Visual Arts em Nova York, onde fiz uma especialização em desenho. Em seguida, fiz o Mestrado e o Doutorado, com bolsa do CNPq, em Artes Visuais na Columbia University, NY e, em 2001, fiz um Pós Doutorado em Instalação e Performance na School of The Museum of Fine Arts,/Tufs University em Boston, com bolsa da CAPES.
Quando você decidiu ser artista e qual foi a reação familiar?
Decidi naturalmente, pois desenhava compulsivamente desde sempre...aos cinco anos havia decidido ser artista plástico, dinamarquês e morrer com 103 anos. A reação familiar? Me mandaram para a psicanalista...onde eu passava horas desenhando.
Que artista influenciaram seu pensamento?
Minha avó Gertrud Alice Orthoff, Hergé, Christian Boltanski, Jackson Pollock, Johanes Vermmer, Marina Abramovic´, Marcel Broodthaers, Richard Tuttle, Lygia Clark, Richard Long, Bas Jan Ader, Leonilson, Feliz Gonzalez-Torres, Regina de Paula, Anish Kapoor, Cildo Meireles, Gordon Matta-Clark, Mira Schendel, Ann Hamilton, Yoko Ono, Rebecca Horn, Bill Viola, Dan Grahan, Kiki Smith, Kurt Schiwitters...São realmente muitos...
Você poderia fazer um comentário sobre sua obra?
Trabalho com a miniatura, por sua delicadeza, fragilidade, escala infantil e como tática de demandar ao público um movimento de aproximação física com a obra e uma desaceleração no tempo de visita e contemplação. Trabalho na fronteira da escrita com o desenho, não importa se estou criando uma instalação, performance, pintura ou vídeo. Sou apaixonado pela fluidez do desenho, por sua potência de índice, de sugestão em aberto a partir da experiência. Gosto do mistério, de levantar a bola para que o espectador complemente e atualize a experiência, da forma que desejar.
Você é representado por galeria?
Sim, pela Galeria Centro de Arte Moderno em Madri, estou no processo de "namoro" com uma galeria de São Paulo, mas tenho exposto muito mais em espaços culturais e museus do que em galerias.
É possível viver de arte no Brasil?
Difícil, mas existem casos. Penso que o difícil não é viver da arte, mas viver sem fazer concessões.
Qual a importância do curador?
Grande, lógico, o problema não é o poder do curador, mas a ausência de fala do artista. Precisamos estar em contínua troca de idéias: curadores, críticos, teóricos, educadores, artista e público para oxigenar e evitar engessamentos de idéias e pontos de vista. Acredito que cada grupo contribui com um enquadramento específico, que ajuda ampliar o debete e embate nas artes.
Existe crítica de arte no Brasil?
Não posso responder pelo País, em Brasília não existe. Leio alguns comentários críticos, mas o que falta, em minha opinião, é um profissional com coluna fixa na imprensa, com liberdade para mapear criteriosamente a produção recente do país.
Além de artista, você é professor da UnB, essa atividade interfere em sua obra?
Interfere, sempre me interessei por educação no sentido amplo, filosófico, de como se forma um artista. Sou professor no Departamento de Artes Visuais do Instituto de Artes da UnB desde 1993, quando passei no concurso, recém-chegado de Nova York. Adoro estar em sala de aula, onde atuo na graduação e na pós graduação na linha de Poéticas Contemporâneas. Além disso, tenho orientações da graduação ao pós-doutorado e um grupo de pesquisa: Moradas do Íntimo. Estar junto com os estudantes é troca integral, é atualização de conhecimentos, informações, além da possibilidade de estabelecer uma dinâmica distinta do artista romântico trancado no ateliê, que me desagrada profundamente. Me divirto muito com eles.
Como você vê o ensino de arte no Brasil?
Bem melhor do que quando eu era estudante, os cursos se estruturaram, os professores estão mais bem qualificados, com experiências de formação distintas, importantíssimo para circulação de idéias. O que, ainda, falta é a melhoria da infra-estrutura de espaço físico, equipamentos, bibliotecas atualizadas etc. Quando lecionei, como professor convidado, na Penn State University e na SMFA em Boston, fiquei impressionado com a facilidade e a eficiência da estrutura de apoio ao ensino.
De que maneira você se mantém atualizado?
É necessário ter experiência in loco, daí a importância de viajar sempre. Combino minhas exposições e participações em bancas examinadoras no país e exterior com o tempo para visitar as exposições e artistas. Livros, internet, simpósios, congressos etc são também utilizados para esse fim.
Pode citar suas principais exposições?
Centro de Arte Moderno, Madri. School of The Museum of Fine Arts Gallery, Boston. ARS117, Bruxelas, Davis Museum, Barcelona. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Galeria Gentil Carioca, Rio de Janeiro. Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Museu de Arte Brasileira da Fundação Armando Álvares Penteado, São Paulo. Centro Cultural Banco do Brasil...
O que você poderia falar sobre a arte contemporânea em Brasília?
Existe uma grande produção jovem, forte e consistente em diversas linguagens. No caso de Brasília, a Universidade de Brasília atua como um forte pólo catalisador. Quando participei da última seleção de projetos da Funarte, no Rio, fiquei impressionado com a quantidade e a qualidade de artistas fora do eixo Rio-São Paulo, precisamos de uma política cultural efetiva que promova, continuamente a circulação da produção no país e no exterior.
Gê muito obrigado pela belíssima entrevista. Você tem um currículo acadêmico irrepreensível, é um professor moderno com atuação no ensino e na pesquisa. Seu currículo artístico nada fica a dever ao acadêmico. Creio ser suas considerações importantes para todos aqueles que se envolvem com a arte. Parabéns aos seus alunos.

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Maurizio Cattelan

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