quarta-feira, 21 de julho de 2010

Conversando sobre Arte Pedro Victor Brandão


Pedro Victor Brandão nasceu no Rio de Janeiro em 1985. Filho de Lula Rodrigues, fotógrafo; e Angela Brandão, socióloga e administradora, criadores da Galeria e Laboratório de Artes Fotográficas F3. Lá, aprendeu sobre incursões quimico-físicas na imagem, exercendo um experimentalismo inicial livre, mas aplicado. Em 2003, iniciou-se efetivamente no campo da arte contemporânea numa parceria técnica comissionada com Daisy Xavier.
Em 2005, matriculou-se no curso de Pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ, mas por várias razões não acompanhou o roteiro acadêmico. A partir de 2006, participa de exposições coletivas. O caminho escolhido foi a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Lá participou de vários cursos, entre eles Acompanhamento de Projetos, com Franz Manata, e Fotografia Expandida, com Denise Cathilina, o que considera fundamental para encaminhamento de sua trajetória. Em 2007, entrou na graduação politécnica da Estácio de Sá, período de realização de vários trabalhos. A partir de dezembro do mesmo ano, passou a integrar o coletivo de arte OPAVIVARÁ!.

Em 2010, foi aprovado para o Programa Aprofundamento do Parque Lage, colocado em prática novamente pela EAV, com recursos da Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro. O curso é gratuito, mas esse ano ainda não ofereceu bolsa de pesquisa aos artistas.Considera uma rica experiência devido à múltipla produção contextualizada nesse espaço, na qual se expressam por diferentes meios e conteúdos artistas num convívio crítico intenso. Os debates sobre as práticas artísticas contemporâneas, a inserção e o embate dos trabalhos dos participantes possibilitam uma plataforma de trocas conceituais bastante significativa. O núcleo é orientado por Gloria Ferreira, Livia Flores e Luiz Ernesto.
Recentemente, teve trabalhos adquiridos para a coleção Gilberto Chateaubriand e foi um dos aprovados no XI Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da FUNARTE, na categoria Pesquisa e Experimentação em Linguagem Fotográfica, por onde desenvolverá o projeto Transitório Fóssil. Pedro desenvolve, também, um projeto com vídeo-colagens, em apropriações de imagens e textos integralmente direcionados ao You Tube.






Marcio Fonseca: Pedro Victor, você é fotógrafo ou artista?
Pedro Victor Brandão: Fotógrafo em técnica, artista em prática e cientista em teoria.


Você poderia comentar o fundamento do seu pensamento para realização de suas propostas?
Palavras chaves são epistemologia, imagem, esquecimento e perenidade. Procuro estado de dúvidas sobre a conexão da verdade com a fotografia desestabelizando os sistemas fotográficos com uma crítica do que venha a ser a imagem técnica contemporânea , num aspiro a re-significação da "caixa preta" e a relação com o conhecimento do espaço, do tempo, das idéias/práticas sociais e da memória. As séries de pinturas químicas, feitas sem câmera, associam as imagens do passado controverso do pictorialismo às imagens de satélite sempre atuais em paisagens automáticas, em que a mão do artista pouco importa. Uma resposta à pintura de "hoje", quase que toda calcada no aparelho fotográfico. Assim como a série Não Civilizada, que propõe um tempo "nunca" para imagens presentes na cabeça de todos, através de retoques digitais. Trabalho em várias séries simultâneamente, que se associam num ciclo autopoético. Considero o embate/debate com meus pares parte desse processo de criação.


Lagoa Rodrigo de Freitas #1, da série Não Civilizada.

Que nomes você vê como influências ao seu trabalho?
Dos que estão mais por perto, Daisy Xavier, Franz Manata e Nadja Fonseca Peregrino. Os três tem clareza e conhecimento crítico sobre as imagens e a história das idéias, no trabalho e na vida. Os textos e debates de Fernando Cocchiarale são notáveis. Rosângela Rennó, José Oiticia Filho, Michael Wesely, Cildo Meireles, Luiz Camnititzer, Cai Qing Gong, Hans Haacke e mais uns tantos formam um gráfico na minha cabeça. Todo o campo de pensamento sobre imagens que é aberto com a Escola de Düsseldorf é algo que também estudei muito. No campo teórico estou num processo longo com Antonio Negri, Vilém Flusser, Humberto Maturana e André Rouille. De pintura cito Pancetti (o Domingos diz ter ele inventado o horizonte) August Strindberg e Cai Guo-Qiang. São eles que venho olhando muito nesse ano. E Carlos Drummond de Andrade, que também é pintura.

É possível viver da arte?
Essa idéia de plenitude é estranha, Marcio. Os sistemas são todos viciados em certezas. O processo econômico/autonômico de um artista é cambiante sempre. Mudança traz sucesso e ação faz boa fortuna (de uma música de Pink Floyd). Estar parado é conservar poder e energia, é bem triste. Vendo alguns trabalhos autorais em relativa frequência e mantenho um estúdio fotográfico voltado para reprodução de obras de arte e parcerias comissionadas em contrato com outros artistas. Mas é a arte que vive da gente, na real.



The Piper at the Gates of Dawn, Pink Floyd.

Qual é a sua avaliação sobre o preço da obra de arte no Brasil?
Negocio meu trabalho na base da possibilidade. O efeito Luciano Trigo no mercado e na crítica já está passando, mas essa avaliação deve ser emitida por alguém mais infiltrado, que acompanhe algo mais que notícias sobre a presença da arte "hard commodity".


Que importância tem os curadores e críticos de arte?
Será que já está todo mundo no Facebook? Os pensadores no exercício de um acompanhamento crítico e na manutenção de um diálogo franco, ético, menos estético e não verticalizado com os artistas é o mínimo para se considerar algum tipo de produção histórica. Os espaços críticos estão todos em revisão de tão embotados. Existe até a crítica à crítica "papel bala"! O artista-etc como falado pelo Ricardo Basbaum está presente em várias práticas hoje, aqui e no mundo. Um contato mais eficaz em torno da produção artística contemporânea está em curso, como nas propostas de Bernardo Mosqueira e do Projeto Apartamento (Bruna Lobo, Tahian Bhering e Jonas Aisengart), os trabalhos do Yuri Firmeza, as coletivas organizadas pela Daniela Name, as incursões de Bia Lemos pela América Latina, residências artísticas e acompanhamentos críticos dos mais diversos sendo abertos, assim como os textos de Ophelia Patrício Arrabal. Há até uma espécie de re-sensibilização crítica promovida pelos trabalhos coletivos do Filé de Peixe, do GIA, do OPAVIVARÁ!, entre outros. Vejo uma aproximação mais intensa e caótica, muitas vezes hiper conectada, virtualmente ou não. É a edição colaborativa de pensamento em rede.

Um factóide: tem um método de discurso que na verdade é uma piada de um humorista judeu que se mudou da Ucrânia para os EUA, e chama-se Reversal Russa. Consiste na inversão em uma frase, do sujeito pelo objeto direto:

"In America, you can always find a party

In Soviet Russia, the party always finds you".

Lembrei-me disso porque ouvi o Paulo Sergio Duarte num debate sobre a situação da crítica emitir a constatação que se você lê um texto de arte e não entende, o problema é do texto e não seu.





Você é representado por alguma galeria?
Com exclusividade, não. Tenho alguns trabalhos no acervo da Toulouse Arte Contemporânea.

Qual a sua opinião sobre as feiras de arte?

Nunca participei. Sobre o mercado indico um trabalho do Superflex (coletivo de arte dinamarquesa) http://www.superflex.net/thefinancialcrisis/.

E uma matéria de Michael Brenson sobre Hans Haacke publicada no New York Times em 1986: http://tinyurl.com/haacke86


Como você se mantém atualizado dentro desse enorme universo de arte?

Sendo um bom rádio com uma boa filtragem regularmente ajustada a múltiplas frequências. Poderia falar de lentes, mas melhor não.


Quais são seus planos para o futuro?

A partir de julho, o grupo expõe no MAM de São Paulo na Ecológica, de curadoria do Felipe Chaimovich. Estou editando uma série sobre oficinas líticas no litoral a ser impressa agora. A partir de agosto, desenvolverei o Transitório Fóssil com o prêmio da FUNARTE. É a elaboração de doze imagens com um grupo de artistas e cientistas colaboradores para ser impressa numa técnica ultra-estável, tal qual uma impressão cerâmica. Feita de carbono e brometo e não reage à luz. É uma abordagem crítica em direção ao futuro sobre o mundo em que colocamos em prática nossos pensamentos hoje, contando com uma fronteira borrada que traz mobilidade entre diferentes sistemas de conhecimento.


Na rede:

http://cargocollective.com/pedrovictor

http://facebook.com/opavivara

http://facebook.com.pedrovictor/

http://moitara.blogspot.com/

http://soundcloud.com/opavivara

http://youtube.com/opavivara

http://youtube.com/pedrovictor


A experiência sobre o Coletivo Opavivará será abordada com todos os integranes do grupo.


Espreguiçadeira multi na Ecológica, de 1 de agosto no MAM de São Paulo.

A entrevista com Pedro Victor Brandão foi realizada em seu ateliê. Depois de escrita, foi revisada e ampliada por ele. Impressiona em Pedro Victor a seriedade, a competência e a profundidade com que aborda os assuntos.








































































































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Maurizio Cattelan

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