terça-feira, 1 de junho de 2010

Mara Martins e seu encontro com Louise Bourgeois

Mara Martins
Faça Você Mesmo (1999) Mara Martins



Mara você poderia contar a sua experiência com Louise Bourgeois?


Estive em sua casa / atelê, no Chelsea em Nova York no ano de 2000, num dos encontros promovidos por ela aos domingos. Ali se reuniam artistas, fotógrafos, críticos e estudantes, de diferentes lugares e com a intenção de conhece-la e trocar idéias sobre seus próprios processos de trabalho. Era um encontro informal, mas tinhamos de agendar previamente e chegar pontualmente às 15 horas. Nesse dia éramos um grupo de dez pessoas e fomos recebidos por uma jovem videomaker a quem cabia registrar essas reuniões. Ela nos conduziu a uma grande sala, que parecia ser seus escritórios. Havia desenhos e anotações penduradas nas paredes.




Quando chegou Louise? Qua foi sua impressão da artista?


Louise chegou, através da cozinha, localizada num cômodo ao lado, arrastando seus chinelinhos e sentou-se numa cadeia sobre duas almofadas, por trás de uma frágil mesinha. Dali ela dirigiu a reunião, ouvindo atentamente cada visitante, opinando de maneira bastante aguçada e crítica sem nenhum senso de humor.




Que trabalho você mostrou a Louise?


Nesta época eu desenvolvia uma série d ebordados pornográficos sobre peças de enxoval e Louise Bourgeois era uma referência forte na construção desta linguagem. Foi com fotos das peças e o conceito do trabalho que me apresentei a ela.




Quais foram os comentários?


Em sua análise, ela destacou o aspecto de menos valia da mulher na sociedade machista e ressaltou como a família, ainda, quer se livrar dela utilizando o enxoval e o dote como moeda de troca. Observei, que Louise fazia uma leitura com ênfase nos aspectos simbólicos e psicológicos dos trabalhos apresentados. Era uma abordagem que ela colocava em sua própria obra.




Que papel você atribui a Louise Bourgeois?


Como mulher e artista, ela vivenciou no século XX, épocas de grande repressão e, também, de liberação da mulher na sociedade ocidental. Seus trabalhos foram constuídos sob uma nova ótica _ a feminina _ e nos levaram a refletir sobre sexualidade, maternidade, libido, repressão, culpa e desejo, pulsões de vida e morte.




Muito obrigado Mara, tenho certeza do interesse dos leitores em sua entrevista.


La se foi Louise...


Mara Martins nasceu em São Paulo. Formou-se na FAAP. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde vive e trabalha. Foi assistente de Nelson Leirner. É professora substituta da EBA, UFRJ. É representada pela Galeria Anna Maria Niemeyer. Recebeu o prêmio do 8o Salão de Arte da Bahia.

Um comentário:

Alberto Hermanny Filho disse...

Muito legal saber da generosidade e disponibilidade da Louise em receber pessoas interessadas em sua casa para discutir arte. Um ótimo exemplo para a geração atual de artistas. Parabéns Marcio, sempre surpreendendo!
P.S. Essa Mara é uma sortuda!!!!

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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