Nelson Leirner: Stripencores e outras*
Uma visão pessoal**
Durante a inauguração de
Stripencores e outras, tive a sensação de que Nelson Leirner, ao montar a exposição, estava inovando uma vez mais, contando parte da história de sua brilhante trajetória. Colocar lado a lado obras antigas modificadas e aquelas construídas especialmente para a mostra daria ao espectador a oportunidade de entender segmentos de seu pensamento no longo e vitorioso
caminho percorrido.
Stripencores e outras, tive a sensação de que Nelson Leirner, ao montar a exposição, estava inovando uma vez mais, contando parte da história de sua brilhante trajetória. Colocar lado a lado obras antigas modificadas e aquelas construídas especialmente para a mostra daria ao espectador a oportunidade de entender segmentos de seu pensamento no longo e vitorioso
caminho percorrido.
A primeira obra, Tronco e Cadeira, juntamente com O
Porco (um porco empalhado dentro de um caixote com um presunto defumado
acorrentado ao pescoço fizeram parte
da série Matéria e Forma, selecionadas para o IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal, em 1964. Ao receber o comunicado da aceitação, Nelson questionou publicamente o júri. Houve grande repercussão pela imprensa e, desde então, o artista é tachado de polêmico e questionador. Não caberia apresentar O
Porco, numa galeria comercial, por ser propriedade do acervo da Pinacoteca de São Paulo, mas
Tronco e Cadeira representa
significativamente as questões envolvidas à época.
Perdeu-se o trabalho original, que foi reconstruído em 2002.
Porco (um porco empalhado dentro de um caixote com um presunto defumado
acorrentado ao pescoço fizeram parte
da série Matéria e Forma, selecionadas para o IV Salão de Arte Moderna do Distrito Federal, em 1964. Ao receber o comunicado da aceitação, Nelson questionou publicamente o júri. Houve grande repercussão pela imprensa e, desde então, o artista é tachado de polêmico e questionador. Não caberia apresentar O
Porco, numa galeria comercial, por ser propriedade do acervo da Pinacoteca de São Paulo, mas
Tronco e Cadeira representa
significativamente as questões envolvidas à época.
Perdeu-se o trabalho original, que foi reconstruído em 2002.
Em 1967, continuando sua luta para discussão do mercado de arte, Leirner criou a série Homenagem a Fontana, uma referência ao grande artista italiano, que, ao ver suas telas prontas, fazia cortes para sugerir a teoria de outro espaço além do quadro. Na série do artista brasileiro, os trabalhos eram confeccionados em chassi de madeira, tecidos e zíper, sendo vendidos pelo preço de custo, questionando o alto valor das obras de arte. O gesto único e pessoal de Fontana foi substituído por algo mecânico como abrir um zíper e deixar à mostra o tecido abaixo. Caberia ao público interagir com a obra, pelo ato de abrir e fechar o mecanismo colocado. A maioria das telas desapareceu e os poucos exemplares remanescentes estão em museus e coleções particulares. Com esse trabalho Nelson recebeu o Grande Prêmio da Bienal de Tóquio. A nova série, mostrada na atual exposição, são reproduções copiadas por meio da plotagem de um original. O espectador tem a sensação da igualdade entre os dois, mas o zíper está fixo. Creio ter sido a primeira referência utilizada por Nelson e o primeiro múltiplo produzido por um artista brasileiro.
Em 1968, Nelson fez uma intervenção urbana, ocupando 150 espaços públicos da cidade de São Paulo com outdoors. Em cada um deles havia desenhos de sua autoria. As três cabeças de mulher sorriam, sugerindo algo sexual. Acima delas estava escrito Aprenda a Colorir Gozar a Cor/ Gozar Colorindo. Com tal ação, ele pensava entrar diretamente em contato com o grande público, deslocando a obra dos espaços tradicionais, como museus e galerias, que têm um público selecionado e específico. Corridos quarenta e dois anos, ele inverte a situação e coloca a obra dentro da galeria comercial. O tempo, a história e o artista deram respaldo à transformação de um painel em obra de arte exclusiva.
No centro do espaço destinado à exposição, encontram-se quatro manequins com perucas coloridas e máscaras negras, vestindo criação exclusiva do designer Nelson Leirner. As roupas longas são modeladas com zíper, permitindo que, ao abri-lo, sejam retiradas partes deixando, ao final, um minivestido. Cada manequim exibe uma possibilidade de transformação. Os modelos exclusivos foram criados em 1968 para o Caderno de Carnaval do Estado de São Paulo. Nelson remeteu-se ao tempo em que tinha confecção e funcionava como estilista e cenógrafo. O título Homenagem a Fontana II faz referência à Homenagem a Fontana I, pelos mecanismos do zíper. Há, ainda, algo de erótico no ato de despir a mulher.
Nelson foi sempre apreciador de esportes, dedicando-se por algum tempo ao tênis no Clube Paulistano. Utilizou o tema diversas vezes em diferentes versões sobre futebol, natação, tênis de mesa, tênis, esqueite. Há, ainda, trabalhos sobre o Corintians e a seleção brasileira.
Durante o período da ditadura, em 1975, uma instalação importantíssima, denominada Esporte é Cultura, foi exibida na Galeria Arte Global, em São Paulo. Era constituída de roupas exageradamente grandes, uniformes dos jogadores, do juiz e bandeirinha, dos dirigentes e do público. A instalação serviu para uma ácida crítica à maneira como os militares utilizavam o esporte para propaganda de seus feitos. Da instalação original, estão duas roupas, Paletó e Fraque;
ambas perderam a
informalidade da
apresentação e, emolduradas em elegantes caixas envidraças, adquiriram respeitabilidade quase imperial.
Durante o período da ditadura, em 1975, uma instalação importantíssima, denominada Esporte é Cultura, foi exibida na Galeria Arte Global, em São Paulo. Era constituída de roupas exageradamente grandes, uniformes dos jogadores, do juiz e bandeirinha, dos dirigentes e do público. A instalação serviu para uma ácida crítica à maneira como os militares utilizavam o esporte para propaganda de seus feitos. Da instalação original, estão duas roupas, Paletó e Fraque;
ambas perderam a
informalidade da
apresentação e, emolduradas em elegantes caixas envidraças, adquiriram respeitabilidade quase imperial.
Há trabalhos inéditos. A
reprodução de uma tela do artista holandês Piet Mondrian, um dos fundadores da arte moderna, sofreu uma interferência. Sobre cada linha, o artista colocou carrinhos enfileirados com a mesma cor da linha. A repetição da imagem, como a do automóvel, é uma das características das obras do artista. O título original do trabalho utilizado como modelo é New York City, da coleção do Centre Georges Pompidou. Nelson conhece bem o fascínio de Mondrian pela música americana, especialmente o jazz. Ao escolher o título New York New York nos transporta a Frank Sinatra e Liza Minelli, que imortalizaram o grande sucesso da autoria de John Kander e Fred Ebb.
A outra novidade é o Construtivismo
Musical, uma tela representando um piano. Seria ele aparentado da série Construtivismo Rural? Nesta série, de 1999, Nelson criou mais uma polêmica com suas telas de couro animal, pois procurou simular trabalhos da corrente dominante na arte brasileira naquele momento: o Construtivismo. Tal qual o zíper da Homenagem a Fontana I,
o piano tem aparência tão real, mas não pode ser tocado.
Musical, uma tela representando um piano. Seria ele aparentado da série Construtivismo Rural? Nesta série, de 1999, Nelson criou mais uma polêmica com suas telas de couro animal, pois procurou simular trabalhos da corrente dominante na arte brasileira naquele momento: o Construtivismo. Tal qual o zíper da Homenagem a Fontana I,
o piano tem aparência tão real, mas não pode ser tocado.
A última obra inédita foi construída a partir de colares de metal, que Nelson troca no dia 1º de janeiro e, ao longo do ano, vai pendurando neles enorme variedade de objetos, como anéis, estrela de Davi, corações, chaves, figas, brinquedos, crucifixos, espelhos e outros, conferindo identidade diferente a cada um. Neste ano, começou o 13º colar. Os doze anteriores foram imortalizados em caixas individuais lacradas com vidros com o título de Colares. Basta olhar para qualquer um deles, e o espectador identifica de imediato a representação do retrato do artista. Isso permite afirmar que o título mais adequado para a série seria Autorretrato. Em 1964, ele já havia feito o seu único autorretrato, construído com duas paletas usadas quando, ainda, se dedicava à pintura.
Não seria possível ao grande Mestre contar toda sua vida de artista no belíssimo espaço das novas instalações da Galeria Silvia Cintra + Box4, mas ele deixou registrada parte significativa de suas lutas, embates e vitórias.
Bibliografia consultada: Farias A. _ O Fim da Arte Segundo Nelson Leirner, São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1995.
Chiarelli T. _ Arte e Não Arte Nelson Leirner, São Paulo: Galeria Brito Cimino, 2002.
Dos Anjos M. _ Adoração Nelson Leirner, MAMAN Recife, 2003.
Apropriações do Espírito Pop 1963-1968 Waldemar Cordeiro/Antonio Dias/Wesley Duke Lee/Nelson Leirner _ São Paulo, Museu de Arte Moderna de São Paulo, 2003.
*Stripencores e outras. Exposição individual do artista Nelson Leirner, Galeria Silvia Cintra + Box 4. Rua das Acácias 105. Gávea.
** Marcio Fonseca Artista plástico. Aluno de Nelson Leirner.
Revisão do texto: Alice Reis Rosa.
Um comentário:
Maravilha, Marcio! Aprecio muito seu blog e, como ex aluna e fã do Nelson, gostei imensamente do seu texto!
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